Arquitectura Selectiva
“Insatisfação na Arquitectura” é o tema de capa do Expresso Emprego deste fim-de-semana.O que mais me surpreendeu neste texto foram os números:
- 80% dos arquitectos recebe em média até 2000 euros mensais brutos
- 10% declaram receber mais de 3000 euros mensais brutos
- 50% das mulheres e 37% dos homens declara receber menos de 1000 euros mensais brutos
- 50% do número total de arquitectos a exercer tem menos de 35 anos
- todos os anos entram no mercado 1000 novos arquitectos licenciados pelas 13 faculdades estatais e privadas do país
- licenciados em arquitectura rondam os 15 mil profissionais (dos quais 35,5% são mulheres)
- a maioria (mais de metade) entrou na profissão através dos seus conhecimentos pessoais: professor, familiar, amigo ou colega
- 25% dos actuais arquitectos possui relações próximas dentro do corpo profissional da arquitectura, o que aponta para a existência não só de dinastias como também de clãs profissionais
Eu comprei o jornal, mas podem consultar o artigo completo em: expressoemprego.pt
Que o cenário não é apelativo já não me era novidade, mas ter o conhecimento destes números dá que pensar. Somos muitos e o trabalho em arquitectura escasseia. Somado a isso ainda temos o decreto 73/73 que permite que engenheiros civis e desenhadores possam assinar projectos de arquitectura. O problema existe. Tem-se construído muito! Maus projectos e construções deficientes e de má qualidade têm brotado por este país adentro. Mas ao arquitecto, o trabalho escasseia. Eu vejo aqui uma relação directa!
Não há procura porque somos dispensados. Menos trabalho, menos rendimento.
Se virem uma asneira arquitectónica (em Portugal), as probabilidades são que não tenha sido por culpa de um arquitecto, mas por culpa daqueles gajos que também assinam projectos de arquitectura. Simplesmente porque não têm formação para o fazer. Não é com uma ou duas cadeiras semestrais de “Arquitectura”, que se deveria estar habilitado a assinar projectos desta especialidade. Apelo a deixarem ser os arquitectos a fazerem estas asneiras.
Muitos construtores civis dispensam o acompanhamento de obra por um arquitecto, com vista a um maior lucro. Não vêem que estamos tão baratos que por mais um pouco vendiam melhor e com menos defeitos. Não me parece que seja contra o bem comum fazer obrigatória a presença de um arquitecto em obra, por lei.
Enquanto isso, o português continua a viver em novos edifícios mal construídos, com problemas de estanquidade e isolamento, entre tantos outros. O português vive no suburbio mal planeado, dominado pelo acaso e pelo interesse. Se a rua principal for ausente de comércio mas tiver as fachadas populadas de entradas de garagem, melhor! Até dá jeito para o carro, se este conseguir passar a curva da rampa.
Já faz muito tempo que se espera que a lei proteja a profissão. Quem se lança agora no mercado é melhor nem contar com isso e esperar sentado ao estirador.
Não é que o português não gosta do Arquitecto. O português não precisa do Arquitecto, contenta-se com pouco. Quem não se contenta é o Arquitecto.


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