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O Arquitecto

Terminei hoje de ler o livro O Arquitecto de Keith Ablow.

Foi-me oferecido pelo Natal pelos tios da minha mãe que provavelmente encantados pelo título, acharam que seria a prenda ideal para mim, tendo recentemente terminado o curso de Arquitectura. De facto, foi! Apesar de que, ao contrário do que se possa pensar de imediato, não se tratar propriamente de um livro de arquitectura ou da condição da profissão de arquitecto.

O livro é um policial que trata um assassino em série que deixa um rasto de vítimas pertencentes às familias mais abastadas dos Estados Unidos e cujos corpos disseca com uma precisão e cuidados cirúrgicos para expor um orgão, vaso ou articulação como se este fosse uma obra de arte. Frank Clevenger, psiquiatra forense é o protagonista. Ele debate-se ao longo de toda a história com a sua carreira profissional, o desafio que lhe é apresentado e a urgência em simultâneo com problemas pessoais desde as suas relações afectivas à a sua dependência no alcool .

Clevenger tem que encontrar rapidamente o elo entre as victimas e descobre que estão todas relacionadas de alguma forma com a sociedade secreta Ordem da Caveira e dos Ossos, da Universidade de Yale. Esta pista leva-o a West Cross, um arquitecto considerado um génio, também ele membro da Ordem, que procura criar as casas mais perfeitas baseadas na análise que faz às familias que as vão habitar, que também deverão encaixar nesse ideal de perfeição, nem que para isso seja necessário eliminar os elementos que são obstáculos aos seus propósitos.

O thriller explora a complexidade da mente humana, a ténue fronteira entre sanidade e loucura, a busca pela perfeição, o desejo de ordem, a dimensão humana da arquitectura além das simples medidas. O objecto, a acção, o significado, a dimensão oculta.

- O que fazia dele um arquitecto assim tão bom?
- Sabia usar o espaço para criar vida. Poucas pessoas o sabem fazer.
- Isso significa o quê?
- O que é isto?
- Uma mesa.
- Continue.
- De madeira [...] rectangular. Cerca de setenta centímetros por noventa, aí uns sete centímetros e meio de espessura.
- É de madeira – disse Jones. – É uma das dimensões. Mas, claro, tem muito mais que se lhe diga do que apenas isso. [...] Ajuda-nos a ser humanos.[...] Para começar, separa-nos o suficiente para nos sentirmos confortáveis, mas não nos mantém demasiado afastados. [...] Alguém teve de decidir isso. [...] Mais pequena, talvez resultasse para o romance, mas não certamente para os negócios. Mais comprida e mais larga ajudaria se tivessemos de rever uma data de documentos, mas este lugar não foi projectado para encorajar esse tipo de trabalho. Fomenta, sim, a conversa. [...] Há mais. O modo como foi colocada na sala: suficientemente afastada das outras para podermos conversar, mas não demasiado ao ponto de nos sentirmos isolados. [...] Há bastante espaço até se chegar a nós, caso alguém pretendesse fazê-lo, mas é também um fluir de espaço que permite a qualquer estranho passar sem se sentir obrigado a dar conta da nossa presença sequer. Alguém que conhecêssemos poderia fingir até que não nos tinha vistoe não haveria qualquer recriminação da nossa parte. E isso foram também decisões tomadas por alguém. [...] não tive necessidade de gritar nem sussurrar. Não receio que o senhor possa não ouvir as minhas palavras, nem que alguém as possa ouvir. A acústica [...] promove o diálogo em vez do silêncio. E houve alguém…

Um artista ou um poeta podem ser intrasigentes. São donos da tela ou da página. Mas um arquitecto é sempre um co-autor. As necessidades do cliente devem ser honradas. E isso inclui os medos e os maneirismos deles, a frugalidade, tudo isso. [...] Combateu-os até cairem para o chão. Não ficava satisfeito até criar um espaço que fosse absolutamente imaculado, com o potencialde revolucionar o modo como eles viviam ou trabalhavam. Estava tão confiante que os seus projectos poderiam transformar as existências deles ao ponto de acreditar que deveriam gastar a quantia necessária para os construir. [...] Houve até um casal que deu os filhos gémeos para adopção depois de o West lhes ter desenhado uma moradia onde poderiam voltar a apaixonar-se novamente um pelo outro. Era um apartamento de águas fortadas de uma só divisão.

ABLOW, Keith
O arquitecto. Presença, 2006. – 252 p.. – (O Fio da Navalha, 87)

O Arquitecto

Category: Arquitectura

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One Response

  1. AM says:

    Uma leitura muito bem recomendada e bastante sábia.

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